Amanheceu cinza após duas semanas de um calor dantesco.
O coração apertado sem motivos parecia sumir e voltar ao peito
O telegrama mal escrito anunciava a falta de sensibilidade
que viria no decorrer dos dias, da vida.
Seu esboço agora estava arquivado
E as cartas que trocamos largadas em qualquer canto
como se você fosse voltar em breve para fechar a caixa aberta
Eu, calada, sentindo o vazio e a culpa que sentem os ausentes
Escolhi a flor que mais lembrava você
e deixei que a garoa que escorria do céu massento
molhasse as folhas
O cheiro do cabelo molhado e o excesso de sal no seu prato
eu jamais vou esquecer
O calor do abraço e o grito suave que saudava a minha voz
do outro lado da cidade
Esse ‘hasta’ antecipado foi outra lição,
das muitas que já tinhas me dado
Aquele beijo calado de quem adverte
E diz que eu não devia ter feito assim
E não devia mesmo
Assim como você não devia ter seguido tão docemente
a luz branca reluzente que te chamava e te afastava da gente.
Foi embora mais cedo sim, para nossa surpresa e indignação
Boa noite, pequena.
Eu sou só saudade.
