Parte d’eu


Tem mais espaço do que eu preciso
e tantas cores quanto eu tenho sonhos
Resumo do que quero e temo. Obra minha
Esvaziei as prateleiras e encaixotei tudo. E todos.
Cada pedaço de mim, cada livro – pedaço de alguém
A raquítica de branco e azul sempre disse
que estas paredes me traríam sorte. Trouxeram.
Em quadrados de madeira, em cabelos estranhos
em cigarros proibidos, em corpos quase santos
em aspirações e velhas utopias
paixões e retratos do pleno desapego
no que podia e não podia, podendo.
Eu vou sempre como se fosse voltar
Mesmo sabendo que não há volta
E me diz, quem sabe se despedir?

para ana carolina

Amanheceu cinza após duas semanas de um calor dantesco.
O coração apertado sem motivos parecia sumir e voltar ao peito
O telegrama mal escrito anunciava a falta de sensibilidade
que viria no decorrer dos dias, da vida.
Seu esboço agora estava arquivado
E as cartas que trocamos largadas em qualquer canto
como se você fosse voltar em breve para fechar a caixa aberta
Eu, calada, sentindo o vazio e a culpa que sentem os ausentes
Escolhi a flor que mais lembrava você
e deixei que a garoa que escorria do céu massento
molhasse as folhas
O cheiro do cabelo molhado e o excesso de sal no seu prato
eu jamais vou esquecer
O calor do abraço e o grito suave que saudava a minha voz
do outro lado da cidade
Esse ‘hasta’ antecipado foi outra lição,
das muitas que já tinhas me dado
Aquele beijo calado de quem adverte
E diz que eu não devia ter feito assim
E não devia mesmo
Assim como você não devia ter seguido tão docemente
a luz branca reluzente que te chamava e te afastava da gente.
Foi embora mais cedo sim, para nossa surpresa e indignação
Boa noite, pequena.
Eu sou só saudade.

De acaso

Levantou, acendeu um cigarro e foi pensar no sonho que teve
Ela de novo roçando os braços dela nos dele
Por acaso e de novo.
Ninguém segura tanta perturbação. Nem ele.
Ainda mais as dela que é coisa que não passa
O sol da tarde deixa vivas as cores do apartamento
Só falta ela. Desta vez, sem os lamentos.
Esqueceu o protetor solar e foi viver sola, pensou.
Ele vai sentir falta da praça dela
Ainda mais sabendo agora, que a pequena voltou a escrever…

nem tão simples assim

E fica pateticamente claro que existem as pessoas
que não me interessam, as que já me interessaram e
aquelas que, com muita certeza, me interessarão por toda a vida.
Fatalmente.

22h50

Para ela, nunca houve problemas em vê-los descendo ladeira abaixo.
Nunca.
Costuma até gostar do barulho que fazem no paralelepípedo.
Exceto nesta manhã.
Animado, ele arrumava a cama que tinha acabado de desarrumar e com um
beijo leve de quem acaba de chegar, foi.
Quilômetro e meio juntos e um amontoado de horas
que nem se pode contar.
Seja como for, encontrou a figura dela desprevenida,
quase nua e sem os incríveis tabuleiros de praxe.
Amarrotou dois sorrisos no bolso direito
e a surpresa que teimava em querer sair por entre os dentes.
Nem planos, nem desenganos.
Foram agraciados novamente e isso merece um registro.

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